ASSUMA O COMANDO
(Neurociências)
Jill, Bolte Taylor,
Jill, Bolte Taylor,
Defino responsabilidade (resposta-habilidade) como a
capacidade de escolher como vamos responder ao estímulo que chega pelo sistema
sensorial em dado momento no tempo. Embora existam certos programas do sistema
límbico (emocional) que podem ser acionados de maneira automática, são
necessários menos que 90 segundos para um desses programas ser acionado,
percorrer nosso corpo, e depois ser completamente banido da corrente sanguínea.
Minha resposta de raiva, por exemplo, é uma resposta programada que pode ser
disparada automaticamente. Uma vez desencadeada, a química liberada por meu
cérebro percorre meu corpo e tenho a experiência fisiológica. Noventa segundos
depois do disparo inicial, o componente químico da raiva dissipou-se
completamente do meu sangue e minha resposta automática está encerrada. Se,
porém, me mantenho zangada depois desses 90 segundos, é porque escolhi [decidi]
manter o circuito rodando. Momento a momento, faço a escolha de me ligar ao
neurocircuito ou recuar para o momento presente, permitindo que aquela reação
desapareça de minha fisiologia.
A novidade realmente excitante sobre reconhecer meus
personagens do lado direito e do lado esquerdo é que tenho sempre uma forma alternativa
de olhar para qualquer situação. Meu corpo está cheio ou meio vazio? Se você me
aborda com raiva e frustração, faço a escolha de refletir sua raiva e me
envolver na discussão (cérebro esquerdo) ou ser empática e responder com um
coração compreensivo (cérebro direito). O que muitos não percebem é que estamos
fazendo escolhas inconscientes sobre como respondemos o tempo todo. É tão fácil
se deixar prender pelos fios da nossa reatividade pré-programada (sistema
límbico) que vivemos navegando no piloto automático. Aprendi que, quanto mais
atenção minhas células corticais superiores dão ao que está acontecendo no
interior do meu sistema límbico, mais eu posso decidir sobre o que estou
pensando e sentindo. Prestando atenção às escolhas que meu circuito automático
está fazendo, apodero-me da minha força e faço escolhas de maneira consciente.
No final assumo a responsabilidade pelo que atraio para minha vida.
Hoje em dia, passo muito tempo pensando sobre pensar,
simplesmente porque considero meu cérebro fascinante. Como disse Sócrates: “Uma
vida sem reflexão não merece ser vivida”. Não há nada mais fortalecedor do que
perceber que não preciso pensar em coisas que me causam dor. É claro que não há
nada de errado em pensar sobre essas coisas, desde que eu tenha consciência de
que estou escolhendo me envolver nesse circuito emocional. Ao mesmo tempo, é
libertador saber que tenho o poder consciente de parar de ter esses pensamentos
quando estou saciada deles. É libertador saber que tenho a habilidade de
escolher uma mente pacifica e amorosa (a do lado direito), sejam quais forem
minhas circunstâncias físicas ou mentais, decidindo dar um passo à direita e
trazer meus pensamentos de volta ao momento presente.
É mais comum que eu escolha observar o ambiente com olhos
que não julgam, os do lado direito da mente, que me permitir conservar minha
alegria interior e permanecer distante daquele circuito emocional carregado. Só
eu decido se alguma coisa vai ter uma influência positiva ou negativa sobre
minha psique. Recentemente estava dirigindo pela estrada e cantando em voz
alta, acompanhando meu CD favorito de Ginger Curry, entoando “ALEGRIIIIIA em
meu coração”. Para meu espanto fui parada por excesso de velocidade
(aparentemente, havia excesso de entusiasmo ao volante). Desde que fui multada,
tive de repetir pelo menos cem vezes a decisão de não ficar triste com isso.
Aquela voz da negatividade estava sempre tentando se erguer e me deprimir. Eu
queria rever o drama muitas vezes, repeti-lo sem parar em minha cabeça, de todos
os ângulos, mas, independentemente de minha contemplação, a situação teria
sempre o mesmo desfecho. Com honestidade, considero essa obsessão do lado
esquerdo de minha mente contadora de histórias uma perda de tempo e um dreno
emocional. Graças a meu derrame, aprendi que tenho o controle e paro de pensar
sobre os eventos passados, realimentando-me conscientemente com o presente.
Apesar de tudo isso, há algumas ocasiões em que escolho me
colocar no mundo como um ego central sólido, único, separado de você. Às vezes
é só uma grande satisfação contrapor minhas coisas do hemisfério esquerdo às
suas coisas do hemisfério esquerdo, seja em conversa ou debate acalorado.
Normalmente, não gosto de sentir a agressividade no interior do meu corpo, por
isso evito o confronto hostil e escolho a compaixão.
Para mim, é realmente fácil ser bondosa com os outros quando
me lembro de que nenhum de nós veio ao mundo com um manual sobre como fazer
tudo corretamente. Somos, em última análise, um produto de nossa biologia e do
meio ambiente. Em decorrência, escolho ter compaixão com os outros quando
considero quanta bagagem emocional dolorosa somos biogicamente programados para
carregar por aí. Reconheço que erros serão cometidos, mas isso não significa
que preciso me tornar vítima ou considerar ações e erros de forma pessoal. Suas
coisas são suas coisas, e minhas coisas são minhas coisas. Sentir profunda paz
interior e partilhar bondade é sempre uma escolha para cada um de nós. Perdoar
os outros e eu mesma é sempre uma escolha. Ver esse momento como um momento
perfeito é sempre uma escolha.
Jill Bolte Taylor
“A cientista que curou seu próprio cérebro” – o relato da
neurocientista que viu a morte de perto, reprogramou sua mente e ensina o que
você também pode fazer.
São Paulo – Ediouro - 2008
Págs. 153-156
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