“DERIVADOS DO
LEITE E CÂNCER DE MAMA”
2. O RASTREAMENTO DAS DOENÇAS
Dr.
Raphaël Nogier,
Diante
da explosão das doenças e do aumento dos prejuízos que a sociedade causou, o
médico vai tratar de aproximar determinados fatos, a fim de deduzir que uma
patologia precisa pode ser provocada por uma perturbação específica.
Esse tipo de estudo, extremamente complexo,
apela para muitas disciplinas, médicas e não-médicas. Trata-se aí, de um verdadeiro
quebra-cabeças chinês que às vezes revela um exercício de malabarista e se
complica pelo fato de que determinadas perturbações não provocam doenças, a não
ser muitos anos depois.
Frente ao aumento das doenças, a pesquisa
científica deve efetuar proezas encontrando por eliminação as causas. Estabelecer
essas correspondências necessita às vezes da colaboração de serviços
internacionais. É nesse exato momento da pesquisa que a epidemiologia entra em
jogo.
1)
EPIDEMIOLOGIA
“Esse ramo da ciência médica se ocupa do
estudo dos fatores, individuais ou outros, que influenciam de alguma maneira a
saúde humana” (definição da Organização Mundial da Saúde).
Existindo há cerca de uma centena de anos,
no início ela se ocupava no estudo das epidemias. Pouco a pouco ela se interessou
pelo aparecimento, difusão, e repartição das doenças no tempo e no espaço. Hoje,
o epidemiologista busca sobretudo saber como “vive” uma doença. Para chegar a
esse resultado ele necessita de cifras e estatísticas.
Cada país tem um senso aproximado do número
de falecimento e sua causa, do número de doenças e sua natureza. Assim, na
França, se conhece o número de infartos, de suicídios, de AIDS, por ano e
sobretudo sua repartição por região, idade e sexo.
Todos os dados estatísticos são transmitidos
pelos diversos ministérios da Saúde, à OMS, que conta com cerca de 160 países
membros. Seus serviços, baseados principalmente em Genebra, constatam a
incidência de cada enfermidade em tal ou tal país. De fato, uma determinada,
difere no Marrocos, no Canadá ou no México.
Esta contabilidade, bastante instrutiva,
permite aos pesquisadores orientar nas investigações em função das estatísticas
e por esse meio emitir hipóteses acerca da origem das doenças. O trabalho dos
epidemiologistas consistirá em explicar essas diferenças em função do modo de
vida, do clima dos países em questão etc.
A epidemiologia é um ramo da medicina cada
vez mais elaborado, que, sem dúvida, irá permitir que se elucide um determinado
número de problemas causados pela civilização.
2)
OS LIMITES DA EPIDEMIOLOGIA
Apesar de que determinadas doenças tenham se
desenvolvido mais em determinados países do que em outros, o epidemiologista
não acha sempre a origem desse fenômeno. De fato, o número de fatores em causa,
às vezes, é tão elevado que torna impossível um estudo científico dos mesmos;
além do mais, o epidemiologista às vezes não está de posse de todos os dados do
problema.
Nessas condições, torna-se então necessário
abordá-lo por um outro ângulo. É aqui que intervém o papel do pesquisador, do
descobridor, com seu trabalho solitário, suas hipóteses, suas dúvidas, seus
sucessos, seus fracassos. Uma descoberta é o fruto da observação, do acaso e
sobretudo da audácia. A audácia serve para fazer recuar as barreiras
intelectuais que a educação impôs. E se os edelweiss podem florir fora das
veredas do grande passeio,k as mais belas descobertas são feitas com freqüência
dos boulevards do pensamento científico.
3)
A PARTE DO MÉDICO
Este livro é voltado aos cânceres de mama. Não
sou nem epidemiologista, nem cancerologista. Médico sem outro diploma, além do
meu doutorado, clínico em Lyon. Tenho 40 anos. O caminho que percorri, no
entanto, não é o de um médico comum.
Tive uma formação literária clássica
(francês, latim, grego) depois fui fazer medicina. Graças ou por causa de minha
família, imbuído do ambiente médico, eu me dirigi à Faculdade de Medicina como
um cão da Bretanha se atira à caça. Com naturalidade.
Oi primeiro ano me pareceu difícil, tanto
que custei a admitir o rigor da natureza. Eu me lembro de meu primeiro curso de
anatomia, do bíceps. No meio de imensa algazarra, o professor explicava que o
bíceps se inseria no acrômio, num local bem preciso. Eu cai das nuvens. Meu espírito
sonhador nunca sequer tinha pensado que havia músculos idênticos em todas as
pessoas e que eles se inserem todos da mesma maneira. Aprendi em seguida o
rigor da química, da física, e olhava com mil olhos, meus colegas copiarem com
zelo, fórmulas que sem dúvida não compreendiam.
Passaram-se muitos anos de violação
interior.
Ensinavam-me a medicina, sem reflexão, sem
fervor. As mais belas descobertas ocorriam num tom monocórdio.
Não foi senão no fim de meus estudos, que
pude recuar um pouco e dar livre curso a meu espírito crítico.
A partir dos 30 anos, percorri o mundo
inteiro, proferindo conferências sobre os métodos de cuidados como a acupuntura
ou o laser, domínio que tinha estudado em particular.
Essas inúmeras viagens ao Japão, à China, à
Coréia, à América do Norte, do Sul, à Nova Zelândia, à Índia, a todos os países
da Europa e à África, me fizeram conviver lado a lado com outras medicinas,
outros médicos, outras doenças. Confrontado com outras culturas, compreendi que
nossa medicina ocidental vivia voltada para si mesma. Seus métodos de cuidado
não se dirigem, no momento atual, a não ser a um quarto da humanidade. Bilhões
de indivíduos não conhecem nem o hospital, nem os medicamentos e se fazem
cuidar por técnicas ancestrais. Sem dúvida, nosso sistema não era o melhor em
todos os campos, a despeito do que se poderia crer.
Em Lyon eu recriei esse clima de abertura e
de troca em meu consultório: cada doente fica lá cerca de três quartos de hora,
o que me permite aprofundar seu histórico. Como muita freqüência, assistem às
minhas consultas diversos médicos estrangeiros, uns trinta por ano. Posso assim
discutir à vontade cada caso e aprender permanentemente. Por outro lado, tenho
a imensa sorte de colaborar com a OMS, onde sou consultor de medicinas
tradicionais.
Por que todas essas informações sobre minha
trajetória?
Simplesmente porque sem esse caminhar
intelectual atípico, sem essas trocas enriquecedoras com outros países e com
outros doentes, eu jamais teria tido a intuição que hoje me impulsiona a
escrever esse livro.
Uma ampla faixa de argumentos extraídos de
minha prática médica, de minhas viagens e de minhas amizades, me fazem pensar
que o câncer de mama se deve em grande parte a um hiperconsumo de derivados de
leite: leite, queijo, iogurtes, cremes etc. Evidente! Esses derivados do leite
poderiam ser uma das causas do desenvolvimento do câncer de mama.
Com o passar dos dias e das consultas, esta
intuição se confirmou, se avolumou, até se tornar uma convicção íntima.
Quando essa constatação cheia de
conseqüências se me afigurou, busquei longamente na literatura médica, os
artigos e livros dedicados na esse câncer.
Que eu saiba, ninguém jamais falou da
relação derivados do leite – câncer de mama. Num primeiro momento, fiquei
admirado que nenhum epidemiologista tenha observado esse fenômeno, que, no
entanto, salta aos olhos e depois mudei de opinião. De fato, quem poderia
pensar que esse alimento de todas as virtudes terapêuticas fosse um
cancerígeno? É alguma coisa como se alguém supor que o Dalai-lama pudesse estar
à frente de uma organização terrorista!
Esta descoberta, que eu sei desde já, irá
chocar e irá fazer correr muita tinta, me faz insistir uma vez mais sobre o
papel essencial do médico no progresso da pesquisa clínica.
O médico tem de fato a sorte insigne de
poder discutir com seu paciente, que com freqüência possui a resposta para sua
doença.
Um interrogatório profundo, minucioso e
orientado pode permitir ao médico seguir um caminho rico de descobertas. Pode parecer
fastidioso, mas irá sempre constituir a fonte do conhecimento médico.
É essa soma de informações abrigadas no
espírito do médico, que após muitos meses ou anos, irá conduzir à revelação, à
intuição. Pois a intuição não é senão o aparecimento consciente de uma
conclusão, de um raciocínio inconsciente, que repousa sobre uma soma de
informações que se acredita estar esquecida.
Os homeopatas, muitas vezes desacreditados,
desprezados nos meios refinados da medicina elegante têm essa preocupação do
interrogatório que esmiúça. Todos os médicos deviam tomá-los como modelo.
Por fim, o médico clínico possui uma
vantagem sobre o pesquisador que se aferrou entre o aquecedor e a escrivaninha:
ele pode examinar seu doente, olhá-lo, tocá-lo, senti-lo, auscultá-lo, enfim,
ele se beneficia de um contato físico insubstituível.
É em parte à medicina francesa dos séculos
XVIII e XIX que se devem as grandes descobertas médicas. Esses dois séculos
produziram grandes clínicos, que às imagem de Bretonneau, passavam horas a
observar, a auscultar um doente. De suas observações, surgiram descobertas
fundamentais para a patologia.
Infelizmente, em nossos dias, tem-se a
tendência de achar que o exame do doente tem um menor interesse, bem como as
informações que se pode obter para as explorações complementares são ricas e
variadas. A biologia, a endoscopia, a radiografia, o ultra-som, dão aos médicos
novas possibilidades e fazem esquecer os antigos métodos de investigação.
No entanto, ainda hoje, o exame físico do paciente
é insubstituível e pode ser fonte de novas idéias científicas.
O abandono dessa medicina clínica foi sem
dúvida uma das causas da estagnação dos progressos em cancerologia. Para estabelecer
uma relação DERIVADOS DO LEITE – CÂNCER DE MAMA, é preciso de fato uma soma de
argumentos que evidentemente são provenientes de estudos epidemiológicos, mas
sobretudo do interrogatório e do exame preciso de doentes de diversos países.
Fonte:
págs. 16-19, do livro “O LEITE QUE AMEAÇA AS MULHERES” Um documento explosivo:
o consumo de derivados do leite teria uma influência preponderante sobre os
cânceres de mama; Raphaël Nogier, São Paulo, Ícone Editora, 1999.

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