sexta-feira, 9 de agosto de 2019

SEU CÉREBRO TEM DIABETES? DR WILSON RONDÓ JR.


SEU CÉREBRO TEM DIABETES?
DR WILSON RONDÓ JR.
Nutrólogo e Medicina Preventiva Ortomolecular


É possível que o cérebro tenha diabete?



É possível que o cérebro tenha diabete?

“Hoje se denomina uma doença como sendo o ‘diabetes Tipo 3’, que é a diabetes no cérebro. Não é só o pâncreas que produz insulina. O cérebro também produz insulina.”
“Alzheimer: é o diabetes tipo 3.”
“A mesma insulina, que compromete o pâncreas na diabetes, é responsável pela produção de placas de beta amilóide no cérebro, e que está relacionada com o Alzheimer.” (...)


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ALZHEIMER
Exame de marcadores biológicos

O diagnóstico da Doença de Alzheimer continua sendo clínico, mas a diferença verificada desde o início da atual década foi a constatação de que marcadores biológicos podem auxiliar a tornar o diagnóstico da DA mais preciso. Os marcadores biológicos que passam a fazer parte da investigação clínica são o beta-amiloide e a proteína fosfo-tau.

A proteína beta-amiloide, como se sabe, é acumulada nas placas senis, um dos marcos patológicos da doença. Essa proteína é produzida normalmente no cérebro e há evidências de que quantidades muito pequenas dela são necessárias para manter os neurônios viáveis. O problema na DA é que sua produção aumenta muito e moléculas acumulam-se como oligômeros, levando à alteração nas sinapses, o primeiro passo para a série de eventos que leva à perda de neurônios e aos sintomas da doença.

Normalmente, a beta-amiloide é eliminada pelo liquor, mas na DA sua acumulação no cérebro faz com que sua concentração no liquor caia. Simultaneamente, ocorre fosforilação da proteína tau, que forma os emaranhados neurofibrilares dentro dos neurônios, que é outra alteração patológica conhecida da DA. Com a morte neuronal, a fosfo-tau é eliminada pelo liquor, aumentando sua concentração. Dessa forma, na DA ocorre diminuição da concentração de beta-amiloide e aumento da concentração de fosfo-tau no liquor.

É necessário ter em mente algumas implicações desse exame:

A alteração das concentrações de marcadores por si não garante o diagnóstico de DA, que deve ter a correlação com sintomas clínicos. Essas alterações podem ser úteis no diagnóstico diferencial entre DA e outras demências, quando o que ocorre com frequência é a superposição de sintomas. Com os marcadores biológicos, é possível fazer o diagnóstico da doença prodrômica, isto é, de pessoas com queixa e dificuldade objetivamente verificadas, mas que não preenchem os critérios para o diagnóstico de demência como, por exemplo, as que não têm prejuízo em suas atividades. Pessoas com doença prodrômica têm chance muito elevada de vir a desenvolver a demência da DA.

Essa mudança nos paradigmas do diagnóstico levou também a uma mudança na busca de novos tratamentos, que agora são dirigidos para a produção e agregação de moléculas de beta-amiloide e para a inibição da produção de fosfo-tau.

A Doença de Alzheimer antes dos sintomas

Os marcadores biológicos e os estudos sistemáticos do cérebro deixaram claro que, por um período de 15 a 20 anos, estão acontecendo alterações no cérebro antes do diagnóstico da demência da Doença de Alzheimer, ainda que seja em sua fase inicial. Assim, poderíamos falar em:

Envelhecimento normal: não há alterações clínicas ou queixa de mau funcionamento cognitivo. Perdas referentes ao processo de envelhecimento envolvem principalmente alterações físicas e sensoriais. Doença pré-clínica: as pessoas não apresentam alteração clínica alguma e sua avaliação clínica será normal, exceto no final desta fase, quando testes de memória e de outras áreas da cognição podem mostrar alterações muito sutis. Por outro lado, verifica-se uma mudança nos marcadores biológicos, com queda na concentração de beta-amiloide e aumento na concentração de fosfo-tau. Exame de ressonância com marcador para beta-amiloide mostrará que esta substância está se acumulando no cérebro. A não ser por esses exames especiais, e que ainda estão disponíveis em poucos lugares, não se pode fazer o diagnóstico de doença pré-clínica.

Doença prodrômica: aqui começam as queixas de memória, que se tornarão mais acentuadas ao longo do tempo. A avaliação clínica mostra objetivamente que há alteração, a mais comum sendo nos testes de memória. Nesta fase, a ressonância com marcador para beta-amiloide mostra maior acúmulo e a ressonância convencional começa a mostrar atrofia cerebral, particularmente para os hipocampos, que constituem uma área central da memória. Nesta fase, as pessoas continuam com suas atividades e, portanto, não se pode falar em demência, apesar de no final desta fase manterem as atividades, principalmente as mais complexas, que requerem mais memória e planejamento, como gerenciar finanças ou planejar viagens, que exigem um esforço maior. Para essas pessoas, portanto, o diagnóstico pode ser feito pelo exame clínico, ajudado pelo exame de liquor e pela ressonância de cérebro.

Demência da Doença de Alzheimer: a DA, como a conhecemos, envolve perdas significativas de capacidades com interferência nas atividades cotidianas. Nesse sentido, as mudanças previsíveis para diagnóstico e tratamento da DA serão:

O diagnóstico será mais precoce, preferencialmente na fase prodrômica. O tratamento será mais precoce, preferencialmente na fase prodrômica. Caso se chegue de fato a medicações mais eficientes, então a perspectiva para as pessoas com DA mudará radicalmente.

(ABRAZ – Associação Brasileira de Alzheimer)


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A hipótese do diabetes de tipo 3

O cérebro humano é, do ponto de vista metabólico, um dos órgãos mais ativos do nosso corpo, processando uma grande quantidade de carboidratos para produzir energia celular na forma de adenosina trifosfato (ATP). Apesar das suas exigências, o cérebro não possui uma grande flexibilidade em termos de substratos para a produção desta energia, baseando-se quase exclusivamente na utilização de glicose. Esta dependência põe em risco o órgão, caso o fornecimento do substrato seja escasso ou interrompido, ou caso a capacidade de metabolizar a glicose se torne falha: o cérebro se torna incapaz de proteger as sinapses. Nesta situação, as células podem não funcionar corretamente, resultando em alterações cognitivas. A partir deste princípio básico, torna-se evidente uma possível ligação entre o diabetes e a DA.165,166

A pesquisa sobre a relação entre o diabetes e a DA começou com o chamado "estudo Rotterdam", um estudo epidemiológico que investigou mais de 6000 idosos por dois anos e apontou uma correlação positiva entre a presença de diabetesmellitus e o desenvolvimento de demência.167 Outro trabalho epidemiológico, mais recente, mostrou a incidência de aumento da DA em homens que ganharam peso entre os 30 e 45 anos de idade e em mulheres entre 30 e 45 anos com índice de massa corpórea maior que 30.168 Já um estudo sueco apontou o aumento estatisticamente significativo do risco de homens que desenvolvem diabetes tipo 2 por volta dos 50 anos de idade de desenvolverem a DA. Pesquisadores também verificaram que homens com baixa produção de insulina aos 50 anos apresentaram 150% a mais de probabilidade de desenvolver DA do que aqueles com produção normal de insulina. Esta associação foi ainda maior em pacientes com deficiência da apolipoproteína E4 (ApoE4), o que parece indicar uma forte predisposição genética para a DA, tornando assim o diabetes um possível fator de risco independente para esta doença.169 As apolipoproteínas (Apo) são proteínas plasmáticas, com a capacidade de se ligar a lipídeos e com a função de transportar triglicerídeos e colesterol para os órgãos, sendo o colesterol liberado utilizado para apoiar a manutenção sinaptogênica e das conexões sinápticas.170 A ApoE humana é uma glicoproteína composta por 299 aminoácidos e que apresenta níveis variáveis de modificação pós-traducional.171 Alguns estudos histopatológicos observaram uma correlação positiva entre a densidade das placas senis e a quantidade de ApoE ε4 no cérebro de pacientes com DA,172,173 e uma pesquisa recente abrangendo uma população de estudo maior sugeriu fortemente que a deficiência de ApoEε4 encontra-se associada ao aumento das placas neuríticas.174 Outros estudos, porém, não observaram nenhum tipo de relação entre esses parâmetros.175-178 Existem diferentes hipóteses sobre a influência desta proteína na patogênese da DA, sendo a principal baseada na função de ApoE como uma proteína que se liga ao Aβ, induzindo mudanças conformacionais patológicas no peptídeo, acelerando a sua deposição no cérebro.179 Com base nesta hipótese, estudos envolvendo uma população de adultos de meia idade com o genótipo ApoE ε4, porém não apresentando problemas de cognição, foram recentemente realizados e os resultados sugeriram que a deposição do peptídeo Aβ parece iniciar-se mais cedo nesses indivíduos.180,181

A terminologia "diabetes de tipo 3" foi introduzida em 2005 por Suzanne de la Monte, cujo grupo de pesquisa examinou o tecido cerebral de pacientes com DA que vieram a óbito, observando que a patologia demonstra elementos dos diabetes de tipo 1 e 2, ou seja, além da diminuição na produção de insulina, é também observada a resistência dos receptores da insulina, sugerindo que a DA pode ser uma doença neuroendócrina associada à sinalização deste hormônio.182,183

Os estudos acima descritos verificaram que a expressão da insulina se mostrou inversamente proporcional ao estágio Braak da doença,184 com uma redução de 80% no número de receptores de insulina em pacientes com DA, em comparação com indivíduos normais. No cenário do diagnóstico da DA, os estágios da doença são determinados segundo a escala de Braak, que avalia, principalmente, os sintomas clínicos de demência em correlação com a distribuição de emaranhados neurofibrilares no cérebro. Os estágios são definidos como I e II quando o envolvimento dos emaranhados está confinado principalmente à região trans-entorrinal do cérebro, traduzido sintomatologicamente como níveis de cognição normais e levemente afetadas, respectivamente. Já nas fases III e IV, há também o envolvimento das regiões límbicas, como o hipocampo, levando ao prejuízo cognitivo de leve a moderado, de confusão e perda de memória, desorientação, problemas com tarefas cotidianas, mudanças na personalidade e na capacidade de julgamento no estágio III e sintomas psicóticos como ansiedade, desconfiança e agitação, além de distúrbios do sono no estágio IV. Por último, nos estágios V e VI, existe grande envolvimento neocortical, acarretando a dificuldade em reconhecer familiares e amigos, perda da fala, do apetite e do controle da bexiga e do intestino. Neste contexto, a capacidade da insulina de se ligar aos seus receptores se mostrou comprometida, com redução nos níveis de RNA mensageiro correspondente à insulina e seus receptores, observando-se também redução nos níveis da proteína tau.183,185,186Estes resultados têm inspirado estudos em modelos animais, em que a injeção intracerebral de estreptozotocina, uma droga para a indução de diabetes em ratos, além de resultar na degradação da insulina e da alteração dos mecanismos de sinalização do fator de crescimento semelhante à insulina, desencadeou o aparecimento de lesões oxidativas no cérebro das cobaias. A combinação destas alterações derivou finalmente em neurodegeneração, incluindo certas características neurológicas típicas da DA.187

A insulina, importante no processamento da memória, tem a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica e é produzida constitutivamente no tecido cerebral. De forma geral, pacientes com DA apresentam diminuição da concentração de insulina e menor número de receptores da mesma. Quando estes sintomas são corrigidos farmacologicamente, uma melhora nos processos cognitivos dos pacientes é observada. A insulina liga-se a receptores específicos no cérebro, a maioria dos quais estão localizados no córtex cerebral, hipocampo, bulbo olfatório, cerebelo e hipotálamo. Devido ao fato destes receptores se localizarem nas áreas do cérebro pertinentes à cognição, é válido considerar a associação entre a insulina e a cognição.188 Diversos estudos utilizando a administração de insulina intranasal, intravenosa e intracerebral demonstraram uma melhoria na cognição das cobaias analisadas.188-190

Evidências experimentais suportam a ideia de que os efeitos tóxicos de Aβ podem promover resistência à insulina. Assim, estes resultados sugerem o desenvolvimento de uma retroalimentação positiva na neurodegeneração progressiva, isto é, a resistência à insulina levaria ao acúmulo de Aβ e a toxicidade deste peptídeo determinaria a resistência à insulina no cérebro.191,192 Esse fenômeno poderia explicar porque a mensuração dos níveis de Aβ no líquor ou a análise por imagem do cérebro têm se mostrado inadequadas como biomarcadores únicos para o diagnóstico definitivo da DA, e porque os resultados de ensaios clínicos de terapia anti-Aβ têm se mostrado inconclusivos até o momento.93,186,193






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