terça-feira, 21 de julho de 2015

A CONSPIRAÇÃO - Marilyn Ferguson


“A CONSPIRAÇÃO”


Marilyn Ferguson,

Depois do não final vem um sim
E é desse sim que depende o futuro do mundo.
 –  WALLACE STEVENS

Uma rede poderosa, embora sem liderança, está trabalhando no sentido de promover uma mudança radical nos Estados Unidos. Seus membros romperam com alguns elementos chaves do pensamento ocidental, podendo até mesmo ter rompido a continuidade da História.
   Essa rede é a Conspiração Aquariana: uma conspiração sem doutrina política, sem manifesto, com conspiradores que buscam o poder apenas para difundi-la, e cujas estratégias são pragmáticas, até científicas, mas cujas perspectivas parecem tão místicas que eles hesitam em discuti-las. Ativistas fazendo diferentes tipos de indagações, desafiando o sistema no seu cerne.
   Mais ampla do que uma reforma, mais profunda do que uma revolução, essa conspiração benigna a favor de uma nova ordem, deflagrou o mais rápido realinhamento cultural da História. O grande sobressalto, a mudança irrevogável que nos está empolgando, não é um novo sistema religioso, político ou filosófico. É uma nova mentalidade – a ascendência de uma surpreendente visão do mundo que reúne a vanguarda da ciência e visões dos mais antigos pensamentos registrados.
   Há Conspiradores Aquarianos de todos os níveis de renda e educação, dos mais humildes aos mais poderosos. São professores e auxiliares de escritório, cientistas famosos, funcionários do governo e legisladores, artistas e milionários, motoristas de táxi e celebridades, expoentes da medicina, da educação, do direito e da psicologia.

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Alguns são ostensivos em sua defesa, e seus nomes podem ser familiares. Outros se mantêm discretos quanto a seu envolvimento, acreditando que podem ser mais eficazes se não forem identificados com idéias que, com demasiada freqüência, têm sido mal interpretados.
   Há legiões de conspiradores. Estão nas companhias, universidades e hospitais, nos corpos docentes de escolas públicas, nas fábricas e consultórios médicos, em órgãos estaduais e federais, nos conselhos municipais e no gabinete da Casa Branca, nas assembléias estaduais, em organizações voluntárias e virtualmente em todas as arenas das decisões políticas do país.
   Onde quer que se encontrem, qualquer que seja seu grau de sofisticação, os conspiradores se acham ligados, afinados por suas descobertas e convulsões interiores. Qualquer pessoa pode superar velhos limites, transpor a inércia e o medo, atingir níveis de realização que antes pareceriam impossíveis... atingir uma plenitude de opção, de liberdade, de aproximação humana. Qualquer um pode se tornar mais produtivo, confiante, confortável na insegurança. Problemas podem ser encarados como desafios, como oportunidades de renovação, mais do que como motivos de tensão. As habituais atitudes defensivas e preocupações podem cair por terra. Tudo pode ser diferente.
   No início, decerto, a maioria não se dispunha a modificar a sociedade. Sob esse aspecto, a conspiração é de um tipo diferente. Mas logo aquelas pessoas verificavam que suas vidas se haviam transformado em revoluções. Assim que uma modificação pessoal começava a se manifestar seriamente, os conspiradores se davam conta de que estavam reavaliando seu modo de pensar sobre todas as coisas, examinando velhas suposições, revendo seu trabalho e seus relacionamentos, sua saúde, poder político e opiniões “abalizadas”, metas e valores.
   Os conspiradores se fundiam em pequenos grupos, em todas as cidades e instituições. Formaram o que alguém denominou de “não-organizações nacionais”. Alguns sabem perfeitamente que o alcance do movimento é nacional ou até mesmo internacional, e se mostram dispostos a se ligar a outros. São, simultaneamente, antenas e transmissores, ouvindo e comunicando. Ampliam as atividades da conspiração através de suas ligações e panfletagem, articulando as novas opções através de livros, de aulas, de currículos escolares, até mesmo de audiências no Congresso e dos meios de comunicação de massa.
   Outros centralizaram as atividades em suas especialidades, formando grupos nas organizações e instituições existentes, expondo às novas idéias aqueles que com eles trabalham, muitas vezes recorrendo a redes maiores em busca do apoio, feedback e informações.
   Há também milhões de outros que nunca pensaram em si mesmos como participantes de uma conspiração, mas que sentem que suas experiências e lutas, fazem parte de algo maior, de uma transformação social mais ampla que se torna cada vez mais visível, contanto que se saiba po0r onde se deve olhar.

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De modo muito característico, não se apercebem das redes nacionais e de sua influência nas mais altas camadas; talvez tenham encontrado apenas um ou dois espíritos afins em seu ambiente de trabalho, nas vizinhanças ou em seu círculo de amigos. Ainda assim, mesmo em pequenos grupos – de dois a três, de oito e dez –, eles estão produzindo seu impacto.
   Procura-se em vão por uma afiliação em suas formas tradicionais: partidos políticos, grupos ideológicos, clubes ou fraternidades. Em lugar de tudo isso, o que se encontra são tênues redes e pequenos agrupamentos. Há dezenas de milhares de ponto de acesso à conspiração. Onde quer que haja pessoas compartilhando experiência, mais cedo ou mais tarde elas se ligam umas às outras e, por fim, formam círculos maiores. Seu número cresce a cada dia.
   Ainda que esse movimento possa parecer romântico e ousado, veremos que ele evoluiu de uma seqüência de eventos históricos que dificilmente poderiam ter conduzido a uma outra coisa... e expressa profundos princípios de natureza que só agora estão sendo descritos e confirmados pela ciência. Em sua avaliação daquilo que é possível, é um movimento rigorosamente racional.
   “Encontramo-nos em um momento muito empolgante da história, talvez um momento decisivo”, disse Ilya Prigogine, que em 1977 recebeu o Prêmio Nobel por uma teoria que descreve transformações, não apenas nas ciências físicas mas também na sociedade – o papel das tensões e das “perturbações” que podem nos impelir para uma ordem nova e mais elevada.
   A ciência, disse ele, está revelando a realidade de uma “visão cultural profunda”. Poetas e filósofos estão certos em suas insinuações de um universo criativo e aberto. Transformação, inovação, evolução – são as respostas naturais às crises.
   Vem se tornando cada vez mais claro que as crises de nossos tempos são o impulso de que necessita a revolução ora em marcha. E, uma vez tenhamos compreendido os poderes de transformação da natureza, veremos que ela é uma poderosa aliada e não uma força a ser temida ou subjudada. Nossa patologia é nossa oportunidade.
   Em todas as épocas, afirmou o cientista-filósofo Pierre Teilhard de Chardin, o homem tem afirmado que se encontra num momento decisivo da história. “E até certo ponto, à medida que avança em uma espiral ascendente, ele não esteve errado. Há momentos, porém, em que essa impressão de transformação se torna acentuada e é, assim, particularmente justificada.”
   Teilhard profetizou o fenômeno central de que trata este livro: uma conspiração de homens e mulheres cuja nova perspectiva desencadearia uma epidemia crítica de mudança.
   Através da história, virtualmente todas as tentativas para remodelar a sociedade começaram pela alteração de sua forma externa e de sua organização. Presumia-se que uma estrutura social racional poderia produzir harmonia por meio de um sistema de recompensa, punições e manipulação do poder.

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No entanto, as tentativas periódicas para se tornar uma sociedade justa através de experiências políticas parecem ter sido obtidas pela oposição humana... e agora o que fazer?
   A Conspiração Aquariana representa O Que Fazer. Temos que mergulhar no desconhecido: o conhecido nos tem falhado por completo.
   Adotando uma visão mais ampla da história e uma medida mais profunda da natureza, a Conspiração Aquariana é um tipo diferente de revolução, com revolucionários também diferentes. Visa a uma modificação na consciência de um número crítico de indivíduos, suficiente para produzir uma renovação da sociedade.
   “Não podemos aguardar que o mundo mude”, observou a filósofa Beatrice Bruteau. “Não podemos aguardar que os tempos se modifiquem e nós nos modifiquemos junto, por uma revolução que chegue e nos leve em sua marcha. Nós mesmos somos o futuro. Nós somos a revolução.”


MARILYN FERGUSON é editora do Brain/Mind Bulletin, o periódico mais lido nas áreas de medicina humanística, saúde, psiquiatria, psicologia, memória, aprendizado, criatividade, pesquisa do cérebro, regeneração biológica, dor, processos físicos da consciência, sonhos, meditação e assuntos correlatos.
No início da década de 1970, Marilyn escreveu The Brain Revolution, que abrangia informações surpreendentes sobre a capacidade do cérebro e da mente.  “A Conspiração Aquariana”, publicado originalmente em 1980, tornou-se um Best seller em todo o mundo e ficou conhecido como A Bíblia da Nova Era. “

Este livro não é só seu”, afirmou um colega escritor depois de ler as provas, “mas de todos nós”. Talvez seja esta a razão que levou A Conspiração a ser mais um fenômeno que um livro.
“Fui mais uma parteira que uma autora.”


Fonte: págs. 23-26, do livro “A Conspiração Aquariana” Transformações humanas e sociais no final do século XX / Marilyn Ferguson; tradução de Carlos Evaristo M. costa; prefácio de Max lerner – 14ª edição – Rio de Janeiro: Nova Era, 2006.



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