quinta-feira, 16 de maio de 2019

Para deixar as coisas claras - Dra. Márcia Angell


[A Verdade Sobre os Laboratórios Farmacêuticos]

“PARA DEIXAR AS COISAS CLARAS”

Por  Marcia Angell,



“PARA DEIXAR AS COISAS CLARAS”


Por  Marcia Angell,


“Este livro revelará a verdadeira face da indústria farmacêutica – uma indústria que, ao longo das duas últimas décadas, afastou-se enormemente do seu nobre propósito original de descobrir e produzir novos medicamentos úteis. Agora, tendo-se tornado essencialmente uma máquina de marketing para vender medicamentos de benefício duvidoso, essa indústria usa sua fortuna e seu poder para cooptar cada instituição que possa se interpor em seu caminho, aí incluídos o Congresso americano, a Food and Drug Administration, os centros médicos acadêmicos e a própria profissão médica. (A maior parte de seus esforços de marketing é concentrada no objetivo de influenciar médicos, já que são eles os responsáveis por prescrever medicamentos.)

   Fui testemunha direta da influência que a indústria exerce sobre a pesquisa médica durante as duas décadas em que trabalhei para The New England Journal of Medicine. A característica dessa publicação é a pesquisa sobre as causas de doenças e seus tratamentos. Cada vez mais, esse trabalho é patrocinado por laboratórios farmacêuticos. Vi laboratórios começarem a exercer um nível de controle sobre o modo de conduzir pesquisas que era inexistente quando iniciei meu trabalho na revista. E o objetivo nítido era o de viciar os dados para garantir que seus medicamentos apresentassem bom desempenho. Por exemplo, as empresas podiam exigir que os pesquisadores comparassem um novo medicamento com um placebo (comprimido de açúcar) em vez de compará-lo com um medicamento antigo ainda em uso. Desse modo, o desempenho do novo medicamento pareceria bom, mesmo que ele pudesse de fato ser inferior em relação ao outro medicamento já em uso. Existem outros modos de influenciar pesquisas, e nem todos eles podem ser detectados, até mesmo por peritos. Evidentemente nós recusávamos esses estudos quando os identificávamos, mas com freqüência eles acabavam publicados em outras revistas.

Às vezes, os laboratórios farmacêuticos simplesmente não permitem que os resultados sejam publicados, quando não são favoráveis aos medicamentos que produzem. À medida que vi o aumento da influência da indústria, fui ficando cada vez mais perturbada com a possibilidade de que grande parte das pesquisas publicadas apresentasse falhas graves, levando os médicos a acreditar que os novos medicamentos são em geral mais eficazes e mais seguros do que realmente são.

   Há agora sinais de que a indústria está enfrentando sérios problemas,  principalmente por ter ela tão poucos medicamentos inovadores prontos para lançamento. Além disso, o público está se tornando cada vez mais cético com relação às suas alegações exageradas, e os consumidores de medicamentos estão começando a se queixar abertamente dos preços intoleráveis. Os lucros, embora ainda enormes, estão começando a recuar e os preços das ações de algumas das empresas de maior porte, estão caindo. Mesmo assim, em vez de investir mais em drogas inovadoras er na moderação dos preços, as empresas farmacêuticas estão despejando dinheiro em marketing, em  manobras jurídicas para prorrogar direitos de patentes e em lobby, para impedir que o governo adote qualquer forma de regulação de preço.

   Se os medicamentos vendidos sob prescrição médica fossem como qualquer bem de consumo comum, tudo isso talvez não tivesse tanta importância. Mas os medicamentos são diferentes. As pessoas dependem deles para manter a saúde e até mesmo a vida. Nas palavras da senadora Debbie Stabenow (democrata: Michigan): “o é como comprar um carro, um par de tênis ou manteiga de amendoim.”8 As pessoas precisam saber que essa indústria está sujeita a inspeções e controles, de tal modo que sua busca pelo lucro não exclua todos os outros tipos de consideração. No capítulo 13, darei sugestões de como o sistema pode ser reformulado para garantir que tenhamos acesso a bons medicamentos a preços razoáveis e que a realidade dessa indústria finalmente seja forçada a acompanhar sua retórica.

   A reforma terá de se estender para além da indústria, para atingir os órgãos e instituições que ela cooptou, aí incluídos a Food and Drug Administration e a classe médica, bem como suas instituições. Esse tipo de mudança profunda exigirá a atuação governamental, que, por sua vez, demandará forte pressão por parte do público. Não será fácil. As indústrias farmacêuticas possuem o maior lobby existente em Washington e contribuem generosamente para campanhas políticas. Os legisladores estão atualmente tão comprometidos com a indústria farmacêutica que será de uma dificuldade extrema liberá-los dessas correntes.

   Mas, a única coisa que os legisladores precisam mais do que de contribuições ara a campanha é de votos. É por isso que todos deveriam saber o que realmente está acontecendo – e foi por isso que escrevi este livro. Ao contrário do que dizem os serviços de relações públicas da indústria, o consumidor não paga exatamente pelo que recebe. O fato é que esta indústria está nos passando a perna e não haverá nenhuma reforma de verdade sem um público alerta e determinado a fazer com que ela aconteça.”

MARCIA ANGELL

Fonte: págs. 16-18, A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos – Como somos enganados e o que podemos fazer a respeito; Marcia Angell, tradução de Waldéa Barcellos; Rio de Janeiro, Record, 2007






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