O EMBUSTE DOS CEREAIS INTEGRAIS
Dr. José Carlos Brasil Peixoto
Médico Homeopata
Médico Homeopata
A troca de correspondência entre Anthony Colpo e Jane Karlsson é uma ampla análise de questões atuais da política da nutrição, totalmente cooptada por uma pretensa política de saúde voltada para um falacioso ideal para a alimentação da população em geral.
A política nutricional não tem fundamentação antropológica. É meramente um artifício. Mas esse artifício tem uma lógica óbvia: subvencionar todas as fases da indústria alimentar. Essa indústria começa no campo. Tanto nos insumos (fertilizantes e agrotóxicos), quanto na valorização das commodities. É incrível que a maioria da população - principalmente a dita comunidade de vanguarda, new age, naturalista ou qualquer outro tipo de adjetivo que pareça ruptura com o sistema, sem o ser de verdade - ninguém se dá conta que toda a arvore de consumo de óleos vegetais, cereais - sob quaisquer forma, industrializados artificiais de soja (leite, "carne de soja" - proteína texturizada - etc.) , toda esse saco sem fundo, só existe porque a indústria alimentar existe. Sem a indústria alimentar boa parte dos bem intencionados new age iriam morrer de fome, ou virar uma luz espiritualizada que tem vergonha de pertencer ao reino animal.
Muitos podem achar que a linguagem de Colpo é áspera demais.
Mas não há porque ser muito cordial com as pessoas que supostamente deveriam basear seus ditos em fatos cientificamente comprováveis, e não ficar seguinte a trágica linha dogmática do submisso conhecimento de saúde nutricional, um infame caminho para a enfermidade, devidamente adornada de adjetivos como: alimentação natural, alimentação saudável, e outras hipocrisias da mídia servil ou de jornais pretensamente subversivos.
Vamos a esse diálogo quentíssimo. Para facilitar a leitura houve uma divisão em seis artigos linkados.
Eis a lista dos links:
O Embuste dos cereais integrais:
Mas, se você quiser o texto na íntegra em um único arquivo ou imprimir esse artigo - clique aqui.
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O embuste dos cereais integrais
Texto de Anthony Colpo
Tradução: José Carlos Brasil Peixoto
Em The Great Cholesterol Con, dedico um capítulo a "Fraudes do Coração" – agentes supostamente saudáveis para o coração que na verdade, nunca tiveram demonstrado impedir sequer um único ataque cardíaco. O primeiro do rank desse capítulo são as fibras dos cereais. Nós fomos advertidos incessantemente que somente se nós todos comêssemos mais alimentos ricos em fibras e grãos integrais é que nós poderíamos reduzir acentuadamente o nosso risco de doença arterial coronariana, câncer de cólon e diabetes.
É tudo bobagem, é claro, mas a propaganda a favor dos grãos integrais ainda é irritantemente difundida. Mesmo pessoas educadas que deveriam conhecer melhor o tema ainda caem como peixinhos nessas iscas, as alegações totalmente infundadas dos saudáveis grãos integrais.
Recentemente, recebi um email de uma PhD, Jane Karlsson, vigorosamente afirmativa de que os grãos integrais são alimentos maravilhosamente saudáveis que poderiam beneficiar imensamente a humanidade. Eu escrevi de volta e disse a Jane, que ela estava errada e desafiei-a a revisar suas afirmações com algumas evidências clínicas reais. A troca de correspondência que se estabeleceu é reproduzida a seguir.
Jane Karlsson escreve:
Caro Sr. Colpo,
Se você acha que Loren Cordain (médico escritor de “The Paleo Diet”, NT) está errado, assim como eu, por que você come arroz branco? Os cereais integrais contêm o suficiente de minerais que ativam enzimas que lidam com as assim-chamadas toxinas. Consulte "A ativação das peptidases intestinais pelo manganês”, e pergunte-se o quão possível seria que os grãos integrais causassem doença celíaca. A farinha branca tem quase todo o seu manganês removido. O arroz branco, mais da metade.
Estes mesmos minerais ativam enzimas do metabolismo de carboidratos (por isso que as plantas os colocam lá), e também previnem o estresse oxidativo induzido pelo ferro. Eu espero que você já esteja cansado de ouvir como o IP6 (inositol hexafosfato) dos grãos integrais e legumes protegem contra a sobrecarga de ferro, mas você não pode ter ouvido que manganês faça a mesma coisa.
O mesmo acontece com o cobre. A ignorância sobre o cobre explica por que as pessoas pensam que gordura saturada provoquem doenças cardíacas: ratos que receberam cobre não desenvolvem a doença cardíaca em uma dieta rica de gordura saturada.
O problema é que Cordain tem muito trabalho com seu prato. Desenterrar toda a informação que precisa para isentar os cereais integrais e as leguminosas leva uma vida inteira. Eu sei, eu passei a vida inteira (bem, 30 anos) para fazê-lo.
Atenciosamente
Jane Karlsson PhD
Oxford, Reino Unido
Anthony responde:
Oi Jane,
Expliquei claramente porque eu como arroz branco no meu site, mas evidentemente você o omitiu, então eu vou recapitular de forma breve: é ainda uma outra opção que me permite elevar meu consumo de carboidratos, para atender minhas exigências de carboidratos, com um baixo teor de antinutrientes, baixa alergenicidade, e adicionalmente livre dos incômodos de uma proteína, o glúten. E, quando combinado com a minha sopa de abóbora, feita com amor, tem um sabor muito agradável.
Não tenho a certeza se o meu consumo de arroz branco tenha a ver com o fato de que muito de que Loren Cordain escreve é factualmente errado. Querendo ou não, eu, pessoalmente, ao optar por comer arroz branco não vou mudar de forma alguma o fato de que sou contrário à postura de Cordain sobre as gorduras saturadas, a qual é cientificamente insustentável, nem desculpa seu duvidoso artigo com Dauncey et al. e a sua pretensão absurda que mostra que "Você pode perder 20 a 30 libras (9 a 13 kg aprox., NT.) em um ano, com absolutamente nenhuma mudança na quantidade de alimento que você come nem qualquer alteração em seu hábito de exercícios. "
Quanto ao seu alto IG (índice glicêmico, NT) (que é compartilhado pelo arroz integral), isso é facilmente moderado, misturando-o com legumes de menor IG e uma moderada quantidade de gordura.
Relativamente ao seu comentário, "e se perguntar o quão possível é que os grãos integrais causariam celíaca doença -." Eu acho que você precisa ler sobre a doença celíaca. Os grãos não "causam" a doença celíaca... A doença celíaca é uma intolerância ao glúten genética pré-existente, os efeitos adversos é que são disparados após a ingestão de grãos e produtos alimentícios que contém glúten.
Você, com toda a seriedade, alega que celíacos podem comer glúten, contido nos grãos integrais com a impunidade? Se assim for, você poderia fornecer as evidências clínicas (não reflexões teóricas sobre o papel de certos minerais, mas evidência clínica bruta com seres humanos vivos reais) para esta revelação surpreendente?
"Eu espero que você esteja cansado de ouvir como IP6 (inositol hexafosfato) dos grãos integrais e dos legumes protege contra a sobrecarga de ferro"
Sim, eu estou, porque não há nenhuma evidência clínica de que grãos integrais e legumes protegem contra qualquer coisa, incluindo sobrecarga de ferro. Como exemplo, vamos dar uma olhada no câncer. No estudo FeAST (o estudo Ferro e Aterosclerose, ou The iron (Fe) and atherosclerosis study, NT), os pacientes que foram submetidos a flebotomia para reduzir seus estoques de ferro tiveram 35% menos chances de desenvolver câncer. Entre os participantes do estudo que não desenvolveram câncer, aqueles do grupo de redução de ferro tiveram 61% menos câncer específico e 51% menos morte por todas as causas, respectivamente [1]. E isso aconteceu com uma redução lamentavelmente inadequada da ferritina no soro para apenas a 80 mcg/dl (era suposto ter sido reduzida para níveis próximos da deficiência).
Então, nós sabemos que a retirada de sangue efetivamente reduz a taxa de ferro e que isso reduz o risco de câncer. Há uma escassez de dados de análise dos efeitos do IP-6 na prevenção ou tratamento de câncer em seres humanos. No entanto, em estudos com roedores, IP-6 purificado reduz drasticamente a incidência de tumores, enquanto que as dietas ricas em fibras de cereais, que proporcionariam uma quantidade semelhante de IP-6, não [2-4]. Nos ensaios com seres humanos, o aumento na ingestão de fibra de trigo falhou miseravelmente em proteger contra o câncer de cólon ou formação de pólipos adenomatosos [5].
Como estratégia de prevenção da doença, o consumo de grãos integrais falha miseravelmente. Sim, eu sei, você pode citar um milhão e meio de estudos epidemiológicos que mostram que grãos integrais estão associados com menores taxas de cada doença conhecida sob o sol. No entanto, uma regra fundamental da ciência (que, evidentemente, muitos doutores esquecem no minuto seguinte à graduação) é que uma associação NÃO é a mesma coisa que um nexo de causalidade. Devido à sua árdua natureza, os estudos epidemiológicos estão irremediavelmente propensos a confusão de uma vasta gama de variáveis.
Os ensaios clínicos controlados são uma forma muito mais confiável de prova, e rotineiramente mostram que os grãos integrais fazem um monte de coisa alguma quando se trata da prevenção de doenças e melhoramentos.
Quanto à sua afirmação absurda de que grãos integrais contêm minerais suficientes para anular as "assim chamadas toxinas"... Caramba, por onde eu começo? Primeiro de tudo, a sua descrição com desprezo das "chamadas toxinas" indica uma relutância em reconhecer a real e bem documentada ação antinutriente própria do conteúdo de grãos e leguminosas. Eu sugiro fortemente que você leia sobre a existência e os efeitos do fitato, lectinas, inibidores de enzima, e de glicosídeos bloqueadores de vitaminas que existem nesses alimentos.
Você afirma que os grãos integrais têm minerais suficientes para anular os seus efeitos tóxicos. Pena que a alta concentração de fitato dos grãos integrais ligam-se a minerais como ferro, cálcio, magnésio e zinco no trato gastrintestinal, reduzindo significativamente a sua absorção pelo organismo [6-8]. Ao mesmo tempo em que eles aumentam o teor dietético de zinco, ferro, magnésio e cálcio, quando comparado com os grãos refinados, também rapidamente aumentam a excreção destes minerais do corpo. O resultado final é que o status mineral geral melhora discretissimamente, permanece inalterado, ou até mesmo piora [12/07]. Se você quiser aumentar a sua ingestão de minerais, quaisquer grãos são uma maneira muito pobre para fazê-lo. De longe as melhores escolhas seriam plantas frescas - nem cereal, nem leguminosa, águas minerais ricas (procure aquelas com uma alta relação magnésio/cálcio), soluções de minerais iônicos, como as provenientes de Utah's Great Salt Lake, e suplementos minerais altamente bio-disponíveis, como os complexos citrato, picolinato, etc.
O efeito do fitato sobre o status mineral foi o motivo para eu abandonar a suplementação do IP 6 e optasse pela flebotomia em seu lugar, e por isso fazia questão de tomar IP-6 com o estômago vazio longe das refeições, a primeira coisa pela manhã, quando eu ainda tomava.
As armadilhas dos cereais não terminam com o fitato. Graças à piridoxina glicosídeo, a vitamina B6 a partir produtos de cereais é absorvida com muito menos eficiência do que a de alimentos de origem animal [13]. Os pesquisadores que alimentaram jovens homens com diferentes alimentos que continham piridoxina glicosídeo constataram que, como os níveis de glicosídeo dietético aumentado, o status da vitamina B6 daqueles sujeitos diminuiu [13]. Novamente, o consumo de fibra de trigo aumentado apenas agrava a situação, a B6 do pão de trigo integral é de cinco a dez por cento menos disponível do que a de pão branco, e a adição de farelo de trigo nas dietas de jovens reduziu a disponibilidade de B6 em dezessete por cento [15,16].
Os cereais não apenas não contêm vitamina D detectável, mas também incentivam ativamente a deficiência dessa importante vitamina, ao alterar a sua absorção. Tem sido reconhecido que o alto consumo de cereais induz a deficiência de vitamina D em várias espécies animais, incluindo primatas, nossos parentes animais mais próximos [17,18]. Ao estudar o destino da vitamina D radio-marcada, os investigadores observaram significativo aumento da excreção dessa vitamina em voluntários sadios alimentados com sessenta gramas de fibra de trigo por dia [19].
A deficiência de vitamina D é comum, especialmente durante os meses de inverno. O professor Hollick Miguel com colaboradores da Universidade de Medicina de Boston observaram que um terço dos adultos saudáveis de Boston entre 18-29 anos eram deficientes em vitamina D até o final do inverno. O risco de deficiência aumenta nos idosos e entre os indivíduos de pele escura; quarenta e dois por cento das mulheres afro-americanas e oitenta e quatro por cento das pessoas idosas negras em todos os EUA eram deficientes em vitamina D até o final do inverno [20].
O status precário de vitamina D tem sido associado ao aumento do risco de câncer de próstata, mama e cólon, osteoporose e outras doenças ósseas, diabetes tipo 1, artrite, infertilidade, TPM, fadiga crônica e depressão, transtornos afetivos sazonais, esclerose múltipla, dores musculares, e doenças cardíacas [20-34].
O efeito da fibra do cereal na absorção da vitamina D pode ajudar a explicar porque o fitato purificado combate o câncer em roedores, enquanto que uma quantidade equivalente fornecida por fibras de cereais tem pouco ou nenhum efeito.
A série de carências nutricionais dos grãos integrais também pode ajudar a explicar porque o único ensaio clínico randomizado para examinar a hipótese de que a fibra de trigo reduziria a Doença Coronariana (DCC) realmente demonstrou um pequeno aumento na mortalidade geral e coronariana [35]. A redução nas defesas antioxidantes pode ter sido um possível contribuinte: quando os diabéticos tipo 2 consumiram uma dieta com reduzida fibra de trigo e uma dieta com elevada fibra de trigo no pão e em cereais matinais durante três meses cada, a oxidação do colesterol LDL aumentou durante a fase com elevada fibra de trigo [36]. Você pode elucubrar prosaicamente sobre o manganês e cobre como você gosta, mas nenhum deles poderia esboçar uma mudança no fato de que, sob condições rigorosamente controladas, os cereais integrais não mostram efeitos positivos, na verdade, quando eles exercem um efeito detectável é tipicamente negativo.
Dadas todas as evidências disponíveis, só posso considerar o movimento pró-cereal integral como uma propaganda tão enganosa quanto a outras piadas de mau gosto promulgadas pelas nossas ignorantes autoridades de saúde, corruptas e sob a influência do lobby da indústria alimentar. É verdadeiramente triste que educados doutores da universidade como você, sejam tão facilmente enganados por tamanha tolice.
Eu realmente não estou certo qual é o propósito do seu e-mail é. Meus comentários sobre Cordain e ao arroz branco parecem que levantaram a sua ira. No entanto, você ainda nem começou a refutar as minhas críticas aos absurdos relatos do Dr. Cordain e da interpretação do estudo Dauncey, nem você forneceu qualquer motivo para que eu não devesse comer arroz branco ou qualquer evidência de que o consumo de arroz branco seja prejudicial. Aos japoneses, para quem o arroz branco é um marco, não parecem estar fazendo muito mal... Como os japoneses, eu não subsistiria exclusivamente com arroz branco, eu comeria uma variedade de antioxidantes e alimentos ricos em nutrientes que por sinal contem, entre outras coisas, manganês e cobre.
Em um momento você indica acreditar que Cordain está errado, em outro momento você está se desculpando por suas informações imprecisas dizendo que ele tem "muito trabalho também em seu prato". Eu também, mas eu ainda me esforço para fazer certo, e o que eu escrevo é factualmente correto. Se eu não tenho tempo para pesquisar completamente sobre um tópico de nutrição ou saúde e fornecer um relatório preciso sobre ele, eu deixo-o de lado. Quanto à sua afirmação: "Desenterrando toda a informação que precisa para inocentar cereais integrais e leguminosas leva uma vida"... Hum, você está ciente de que na verdade Cordain escreveu um artigo destacando o impacto negativo dos grãos, em grande parte dedicada aos efeitos adversos dos cereais integrais? (veja no link)
E quanto à sua declaração, "Eu sei, eu passei a vida inteira (bem, 30 anos) fazendo isso." Eu odeio desapontá-la, mas dada a falta de provas bem controladas, demonstrando os benefícios para a saúde dos seres humanos, você perdeu um tempo muito precioso. Há pesquisadores que tem dedicado uma vida a pesquisar e promover a hipótese lipídica da doença cardíaca, mas isso nem sequer vai começar a mudar o fato de que essa hipótese é um absoluto absurdo.
Como foi dito, eu sou uma pessoa ocupada com muita coisa para fazer e muito pouco tempo para fazê-lo. Se você deseja continuar essa correspondência, por favor, só faça isso se você puder fornecer evidências clínicas rigidamente controladas mostrando os positivos benefícios para a saúde do consumo de grãos integrais (ensaios em que o consumo aumentado de grãos integrais foi parte de uma intervenção multifacetada, nada significa, pois não há como saber exatamente qual(is) a(s) intervenção(ões) produziu(iram) as mudanças positivas. E por favor não comece a me fazer perder meu tempo com outras especulações hipotéticas sobre minerais ou qualquer outra coisa, tais especulações têm sido a causa de milhares de milhões de dólares em fundos perdidos e inúmeras horas de mão de obra científica ao longo de décadas em vão). Se você não puder fornecer tais provas clínicas concretas, eu sugiro que você gentilmente leve seus sentimentos pró-cerais para outro lugar.
Atenciosamente,
Anthony.
Obs: para ler as partes 2, 3, 4 e 5, e a bibliografia , clique no link abaixo:
http://www.umaoutravisao.com.br/artigos/Alimentacao/embuste_dos_cereais_integrais_1.htm
Mas, se você quiser o texto na íntegra em um único arquivo ou imprimir esse artigo - clique aqui.
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