A ÁGUA PARTICIPA DE TODO O METABOLISMO HUMANO
Revista Super Saudável
N. 19 – maio/junho 2004
Por Rosângela Rosendo,
Em janeiro deste ano a classe científica esteve em festa, pois a sonda orbital européia Mars Express encontrou água congelada em Marte, o que pode ser sinal de que existiu ou pode existir vida no planeta vermelho, além de abrir margem para futuras expedições tripuladas ao solo marciano.
Independentemente das hipóteses, o fato de ter água além da Terra reforça a afirmação de que este líquido inodoro, incolor e insípido, formado por duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio (H2O), é vital para a sobrevivência do ser humano. O fluido constitui cerca de 70% do peso corpóreo do adulto, 80% das crianças e até 90% de recém-nascidos, neste caso em especial devido ao metabolismo acelerado.
Entre tantas funções a água ajuda a manter as estruturas celulares dos tecidos, transportar as substâncias reguladoras dos processos vitais do organismo e dissolver nutrientes. Além disso, o líquido direciona esses nutrientes dos pontos de absorção às células e os restos aos órgãos de excreção. Associada a outros fatores, como hábito alimentar saudável e ingestão de fibras, a água ainda ajuda em grande parte para a formação das fezes, facilitando o bom funcionamento intestinal. Tudo isso justifica a razão pela qual médicos e nutricionistas insistem em recomendar a ingestão constante do líquido, a fim de manter o corpo hidratado e, desta forma, evitar o desequilíbrio hídrico e complicações mais sérias como a desidratação.
A nutricionista Ana Maria Cervato Mancuso, professora doutora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), explica que a água está distribuída no organismo entre os compartimentos intra e extracelulares, que abrigam os líquidos intra e extracelulares ( LIC e LEC) respectivamente. Do total hídrico corpóreo, 50% se concentra no LIC, que provê o meio pelo qual as reações bioquímicas acontecem e permite a organização metabólica. Os 20% restantes se encontram no LEC, que se distribui como líquido intravascular (LIV) no interior dos vasos; líquido intersticial (LIT) no espaço intersticial; e constitui os líquidos transcelulares (LTC), como o líquor, líquido sinovial, humor aquoso e vítreo, saliva, suco pancreático, bile e urina, entre outros. Como tarefa, a água no LEC une as células a elas mesmas, a seus sistemas orgânicos e a seu ambiente exterior. “A água também age como lubrificante para o funcionamento normal de partes em que o organismo é móvel, para a manutenção do equilíbrio ácido-basico e é essencial para a regulação da temperatura corpórea”, acrescenta. A partir destes processos, as necessidades hídricas de um indivíduo em condições normais dependem de vários fatores, principalmente do clima e da atividade física que exerce, o que determina mais ou menos perdas.
“Mas o controle hídrico do organismo é bem agitado e é feito por vários mecanismos que ajudam a detectar a carência do líquido”, ressalta o clínico-geral do Departamento de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), Arnaldo Lichtenstein. Quando o nível de água nas células diminui, o corpo se defende fazendo com que os rins reabsorvam mais água. Além disso, os receptores cerebrais localizados no hipotálamo controlam, regulam e ordenam, por meio de impulsos nervosos, a sensação de sede.
“Para produzir energia para se manter vivo e respirar, o ser humano necessita de pelo menos meio litro de água. Se começar a fazer qualquer atividade passa a apresentar perdas não mensuráveis e precisa se hidratar ainda mais”, explica o médico, Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista e professor adjunto do Departamento de Medicina Esportiva da Universidade Federal de São Paulo-Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM), acrescenta que uma pessoa sedentária, que permanece em ambiente fechado com ar-condicionado, pode necessitar de dois a quatro litros de água por dia em média, sem maiores conseqüências. Mas, ao se expor demais ao calor, a média pode aumentar. “Por isso, quando a sede deixa de ser saciada o corpo desidrata”, explica. Segundo o especialista, ao praticar exercícios físicos o organismo fica em débito com a necessidade de água e gera maior risco de desidratação. “O que as pessoas não sabem é que, ao praticar exercícios físicos, 99% do peso que perdem á água”, destaca.
Desidratação – Segundo a nutricionista Ana Maria Mencuso, a carência de água tem repercussão mais significativa sobre a capacidade do organismo de executar uma tarefa qualquer em relação à falta de alimento sólido. “O limite de privação de água é em torno de dois a três dias. A redução entre 4% a 5% da água corpórea reduz de 20% a 30% a capacidade de trabalho dos órgãos e sistemas”, alerta. Em qualquer idade, a produção de calor e a velocidade do metabolismo são os principais fatores que influenciam no controle hídrico do organismo. “Neste caso, as circunstâncias que aumentam estes processos são capazes de provocar desidratação, a menos que haja ingestão adequada e simultânea de líquidos”, acrescenta a nutricionista.
A desidratação é caracterizada como o desequilíbrio entre a ingestão e a perda de água pelo organismo, em geral associada à perda de sal e de eletrólitos, como o sódio e o potássio, e requer cuidados imediatos. As principais causas são a ingestão insuficiente de água ou a perda abundante do líquido em casos de vômitos contínuos, diarréias prolongadas, eliminação de grandes quantidades de urina e produção excessiva de suor. Crianças estão mais vulneráveis a este desequilíbrio hídrico, principalmente por terem menos cuidado de beber água ou por não saberem pedir. “Além disso, as crianças têm superfície corpórea maior com relação ao adulto e ficam com a pele mais exposta, portanto, consomem mais energia, transpiram mais e perdem mais líquido”, explica Turíbio Neto. Com os idosos acontece situação semelhante, principalmente devido ao processo de envelhecimento do organismo, que contribui para a perda maior de líquido.
O primeiro sinal de carência hídrica nas crianças e nos idosos é a alteração de humor. “A criança fica mais chorosa e o idioso costuma ficar desorientado e até começa a falar besteira. Se o idoso ficar o dia inteiro sob forte calor e não tomar água suficiente, certamente vai ficar prostrado ou agitado demais”, orienta Arnaldo Lichtenstein. Já o adulto sente fraqueza, queda das atividades normais e da pressão arterial e, às vezes, tontura. “Quando a pessoa não consegue repor a água do corpo porque está vomitando ou com diarréia, o ideal é procurar ajuda médica para reidratar o organismo”, acrescenta. O especialista reforça que, devido à carência líquida, algumas pessoas apresentam fluxo das coronárias reduzido. “Em situações limítrofes, a pressão pode cair devido à menor quantidade de líquidos circulantes e assim provocar uma angina, um derrame e até lisão nos rins”, explica o clínico.
Corpo hidratado, organismo saudável
Embora a água seja a primeira opção na hora da sede, outras fontes também são recomendadas pelos especialistas para repor líquido ao organismo, como sucos naturais, chás e sopas. Segundo Ana Maria Mancuso, muitos alimentos sólidos contêm boa quantidade de água na composição, especialmente as frutas e as hortaliças, que são compostas de 85% a 95% de água.
Os reidratantes orais também são muito eficazes nesta tarefa. O fisiologista Turíbio Neto explica que, ao transpirar muito, uma pessoa perde sais minerais pelo suor. “Para repor estas substâncias eletrolíticas, como sódio e potássio, as bebidas isotônicas são ótimas e podem ser ingeridas, principalmente por atletas ou pessoas que praticam algum tipo de atividade física constante”, orienta. Outra forma de hidratar o orgtanismo é a ingestão de soro caseiro. “Só é preciso ter cuidado na hora de preparar, porque se a dose de sal e açúcar for invertida ou não for exata o soro pode ficar concentrado e comprometer os rins em crianças pequenas”, alerta Arnaldo Lichtenstein.
Fonte: Revista Super Saudável – N.º 19 – páginas 8 a 10 –
"A vida é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio é preciso se manter em movimento". (ALBERT EINSTEIN, em carta ao filho Eduardo, em 5/2/1930)
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