DIFERENÇA ENTRE OS INTESTINOS
DOS NORTE-AMERICANOS E OS DOS JAPONESES
DR. HIROMI SHINYA
Chefe da unidade de endoscopia do Beth Israel Medical Center
Professor de cirurgia no Albert Einstein College of Medicine
Quando cheguei a Nova York em 1963 vim como médico residente de cirurgia. Naquela época, o método típico de examinar cólons era por enema de bário, procedimento em que se injetava bário no cólon para depois examiná-lo com raio X. Embora esse método pudesse revelara a existência de um pólipo grande, não revelava pequenos detalhes nem a situação interna do cólon. Além disso, para remover o pólipo detectado, usava-se a laparotomia – grande incisão no abdome. Esse procedimento acarretava uma grande sobrecarga mental e física para o paciente. Ademais, com esse método, não era possível dizer se o pólipo era benigno ou canceroso até que o cirurgião observasse o cólon durante a cirurgia.
Naquela época havia um endoscópio chamado proctoscópio, que era um tubo metálico reto semelhante a um cano, porém, por mais que os médicos tentassem, não conseguiam enxergar mais de 20 centímetros de distância do ânus.
Assim, em 1967, comprei um esofagoscópio (usado para examinar o esôfago) que era fabricado no Japão e descobri uma maneira de usar aquele dispositivo de fibra de vidro para examinar o cólon. Foi meu primeiro colonoscópio.
Depois disso, quando foi desenvolvido um dispositivo longo (185 cm ) especificamente para exame de cólon, comprei-o para examinar meus pacientes. Quando olhei o cólon de um norte-americano pela primeira vez, surpreendi-me com suas más condições.
Com uma alimentação baseada em carne vermelha, o cólon dos norte-americanos era claramente mais rígido e curto do que o dos japoneses. Além do estreitamento do lúmen, protuberâncias semelhantes a anéis tinham se formado em determinadas áreas como se estivessem amarradas com elástico. Havia também muitos divertículos e freqüentes acúmulos de fezes.
Essa deterioração das condições intestinais não resulta somente em doenças como câncer de cólon, pólipos colônicos e divertículos. Muitas pessoas com problemas no intestino, na verdade, contraem doenças relacionadas com o estilo de vida, como fibromas, hipertensão (pressão alta), arteriosclerose (endurecimento das artérias), cardiopatias, obesidade, câncer de mama, câncer de próstata e diabetes. Quando os intestinos não funcionam bem o corpo vai enfraquecendo de dentro para fora.
Muitos norte-americanos têm problemas de cólon e, naquela época, dizia-se que uma em cada dez pessoas tinha pólipos. De fato, no departamento de cirurgia em que eu era residente, a remoção de pólipos constituía cerca de um terço das cirurgias. A situação era tal que todos os dias realizavam-se laparotomias somente para retirar minúsculos pólipos de um a dois centímetros. Isso me levou a questionar se não haveria uma maneira de remover pólipos sem impor tamanha carga aos pacientes.
Nesse meio-tempo, naquela época entrava em uso no Japão um “fibroscópio com gastrocâmera” feito de fibra de vidro e com lentes acopladas à sua extremidade. Então, em junho de 1968, fiz meu importante pedido ao fabricante japonês. Pedi-lhe que desenvolvesse um fio que pudesse ser inserido em um colonoscópio para ser usado na cauterização de pólipos sem a necessidade de abrir o abdome. Em 1969, depois de muitas reuniões no escritório da empresa em Nova York e de muitos testes, tornei-me a primeira pessoa no mundo a realizar uma polipectomia – isto é: a remoção de um pólipo usando um fio em alça através de um colonoscópio sem precisar abrir o abdome.
Posteriormente, essa inovação tecnológica foi aplicada à excisão de pólipos de estômago, esôfago e intestino delgado. Depois que meus casos de polipectomia colonoscópicas foram relatados no Congresso da Sociedade de Cirurgia de Nova York, em 1970m e na Conferência Norte-Americana de Endoscopia Gastrintestinal, em 1971, abriu-se um novo campo, o da endoscopia.
Mais de trinta anos se passaram desde então. Durante esse tempo, como continuo a trabalhar nos Estados Unidos e no Japão, tenho observado alterações nas características gastrintestinais das pessoas de ambos os países.
No início da década de 1960, quando se aproximava o período de crescimento rápido do Japão, o país aprendeu a se equiparar aos Estados Unidos, e até em superá-los em muitas coisas.
A partir de 1961, quando o leite foi introduzido nas merendas escolares do Japão, as pessoas passaram a consumir laticínios, como queijo e iogurte, diariamente. Ao mesmo tempo, verduras, legumes e peixes, que eram a base das refeições japonesas, começaram a ser substituídos por proteínas animais, gradualmente transformando a alimentação japonesa em uma alimentação com alto teor de gordura e proteína animal à base de hambúrguer, carne bovina e frango frito. Essa tendência continua até hoje.
Em contraposição, depois da publicação do Relatório McGovern em 1977, muitos norte-americanos começaram a melhorar sua alimentação. Essas diferenças são visíveis nas características intestinais de norte-americanos e japoneses.
Em franca deterioração por causa dos hábitos alimentares, os intestinos dos japoneses, antes limpos, agora se parecem muito com os intestinos dos norte-americanos, cuja alimentação è à base de carne. Por outro lado, as características intestinais de muitos norte-americanos, que realmente se preocuparam com a sua saúde e corrigiram a sua alimentação com alto teor de gordura e proteína, melhoraram sobremaneira. Assim, desde 1990, a taxa de pólipo e câncer de cólon está caindo – clara evidência de que é possível promover a saúde intestinal melhorando os hábitos alimentares.
Fonte: págs 29 a 31, do livro "A Dieta do Futuro", Dr. Hiromi Shinya, São Paulo, Editora Cultrix, 2010.
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